há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa no mundo
varanda dos lados
wc com luar
ruas refulgentes
poltronas & sofás.
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa marítima
alcova com beira-mar
padarias & jardins
vulva crepuscular.
casa que é bar
vulgata vulgívaga
retreta lunar.
mercearia
com pomares em órbita
e sonoros pardais
ou um negro coagido
por uma confederação
de poetas marginais.
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa em desvario
sala de estar com sol poente
zoológicos & rios.
terraços com auroras boreais
um porsche movido
a sonho
cocas & guaranás.
casa que é mundo
rolando em mar profundo
casa que é casa
com uma manhã cada manhã
nascendo no ar na selva
casa trágica onde habitam
feras intramuros.
há quatrocentos anos
eu sonho
um home sweet home
londres paris
montanhas carnavais
boulevards colibris.
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa erigida
sobre a areia do sonho.
sábado, 17 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
me judias de beijos
neste dia tão cristão.
depois me crucificas
de prazer em plena
sexta-feira, de paixão.
neste dia tão cristão.
depois me crucificas
de prazer em plena
sexta-feira, de paixão.
sábado, 30 de maio de 2009
TUAS LUAS
como são lindas
essas luas
fora do teu corpete.
na noite
que ruge nuvens
brilham aterradoras.
lindos
faróis.
estrelas auxiliadoras.
essas luas
fora do teu corpete.
na noite
que ruge nuvens
brilham aterradoras.
lindos
faróis.
estrelas auxiliadoras.
sábado, 22 de novembro de 2008
MARCELA
Marcela
quando está
em seu quarto
reclusa e nua,
é geográfica.
tem vales
cheirando a rosa.
montanhas montanhosas,
e demais acidentes.
pura paisagem andina.
quando está
em seu quarto
reclusa e nua,
é geográfica.
tem vales
cheirando a rosa.
montanhas montanhosas,
e demais acidentes.
pura paisagem andina.
sábado, 8 de novembro de 2008
COMEMORAÇÃO
pôr Maria da Luz na taça.
beber Maria da Luz.
viciar-me nela.
e novamente encher a taça
e outra vez beber Maria da Luz.
embriagar-me dela.
ato contínuo,
noite a meio,
tomar a taça
e entornar-lhe os seios
e, tonto,
tombar de paixão.
beber Maria da Luz.
viciar-me nela.
e novamente encher a taça
e outra vez beber Maria da Luz.
embriagar-me dela.
ato contínuo,
noite a meio,
tomar a taça
e entornar-lhe os seios
e, tonto,
tombar de paixão.
SONHO DE NOIVOS
do noivo:
é escoltar teu sexo
até minha cama
e amar e amar e amar
de um jeito tal
que nunca se ama.
é atrair teus seios
para fora do sutiã,
a fim de sitiá-los
a cada manhã.
é domá-los
como quem doma
jambos maduros,
para os manter à boca
sempre reclusos.
por fim é sonhar
que se pode,
num segundo,
resolver as mazelas
do mundo.
da noiva:
é sonho de alcova
em que um homem,
como um véu,
toda me envolvesse
de carícia torva.
em que um homem,
como uma pedra
na penumbra,
minha fenda fizesse
ainda mais funda.
um sonho
que não tivesse fim
nem meio,
exceto a lâmina
pontiaguda
de dois lábios
em meu seio.
um sonho enfim
que nunca fosse fogo,
posto que é fumo.
mas infinito
enquanto durmo.
é escoltar teu sexo
até minha cama
e amar e amar e amar
de um jeito tal
que nunca se ama.
é atrair teus seios
para fora do sutiã,
a fim de sitiá-los
a cada manhã.
é domá-los
como quem doma
jambos maduros,
para os manter à boca
sempre reclusos.
por fim é sonhar
que se pode,
num segundo,
resolver as mazelas
do mundo.
da noiva:
é sonho de alcova
em que um homem,
como um véu,
toda me envolvesse
de carícia torva.
em que um homem,
como uma pedra
na penumbra,
minha fenda fizesse
ainda mais funda.
um sonho
que não tivesse fim
nem meio,
exceto a lâmina
pontiaguda
de dois lábios
em meu seio.
um sonho enfim
que nunca fosse fogo,
posto que é fumo.
mas infinito
enquanto durmo.
EM CARTAZ
tua boca
era o filme.
teus seios,
os projetores.
e tua calcinha,
Madalena,
a tela
do meu cinema.
era o filme.
teus seios,
os projetores.
e tua calcinha,
Madalena,
a tela
do meu cinema.
POEMA
em tua cambraia
costuro rubro
o dia
com que me tinjo.
coso teus seios
na minha boca,
cravando a tarde
com que me caio.
bordo teu nome
colhido na saia.
vinco a noite
com que me visto.
fio tua carne
na madrugada,
cerzindo a manhã
com que me dispo.
costuro rubro
o dia
com que me tinjo.
coso teus seios
na minha boca,
cravando a tarde
com que me caio.
bordo teu nome
colhido na saia.
vinco a noite
com que me visto.
fio tua carne
na madrugada,
cerzindo a manhã
com que me dispo.
FAROESTE
teu corpo é meu
oeste bravio.
teus seios,
garrafas de rum.
tua boca,
uma taverna aberta
até de madrugada.
tuas pernas,
portas de saloon.
oeste bravio.
teus seios,
garrafas de rum.
tua boca,
uma taverna aberta
até de madrugada.
tuas pernas,
portas de saloon.
DORALICE
quando te despes,
Doralice,
és perfeita
garrafa de cana.
por isso que
te bebo, bebo,
bebo, Doralice,
os sete dias da semana.
bebo por que
sou viciado
em teu sexo.
bebo por que
sou inveterado
em teu corpo.
teu sexo
é minha bebida,
Doralice.
tua boca,
meu tira-gosto.
Doralice,
és perfeita
garrafa de cana.
por isso que
te bebo, bebo,
bebo, Doralice,
os sete dias da semana.
bebo por que
sou viciado
em teu sexo.
bebo por que
sou inveterado
em teu corpo.
teu sexo
é minha bebida,
Doralice.
tua boca,
meu tira-gosto.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
CONVITE PARA FESTA DE FINADOS
todos os que
nesta data
vão morrer,
não se façam
de rogados.
no dia 2
de novembro,
no cemitério,
vai haver
um grande
assustado.
nesta data
vão morrer,
não se façam
de rogados.
no dia 2
de novembro,
no cemitério,
vai haver
um grande
assustado.
FUNERÁRIA CAMINHO DO CÉU
funerária
caminho do céu:
moça do balcão,
de que horas
sai o vôo
do próximo caixão?
caminho do céu:
moça do balcão,
de que horas
sai o vôo
do próximo caixão?
A CASA ETERNA
ontem fui visitar
a casa
onde passarei
a eternidade.
ainda não está caiada
nem tem o cruzeiro
que mandei pôr
enfeitando a entrada.
minha casa é tudo
o que tenho.
tudo o que podia
ter querido
um velho corpo
encardido.
um lar
um doce lar
uma doce lembrança.
só espero
não encontrar
problemas de vizinhança.
a casa
onde passarei
a eternidade.
ainda não está caiada
nem tem o cruzeiro
que mandei pôr
enfeitando a entrada.
minha casa é tudo
o que tenho.
tudo o que podia
ter querido
um velho corpo
encardido.
um lar
um doce lar
uma doce lembrança.
só espero
não encontrar
problemas de vizinhança.
LADRÕES DE TÚMULO
ontem vieram
uns ladrões
de túmulo aqui
e saquearam
minha cova.
preciso
urgentemente
pôr grades novas
nas portas.
uns ladrões
de túmulo aqui
e saquearam
minha cova.
preciso
urgentemente
pôr grades novas
nas portas.
NO DIA EM QUE EU FOR DEFUNTO
no dia em que
eu for defunto
(adiai senhora
esta hora de luto)
não deixarei nada
levarei tudo
para a morada
dos pés juntos:
papel de rolo
um rio com monjolo
uma vaca
uma pedra de amolar faca
um porco uma porca
um livro de lorca
um partido de cana
dois cachos de banana
um mato um monte
e um resto velho de ponte.
sim, levarei tudo
não deixarei nada
exceto minha alma penada
pra assustar vocês.
eu for defunto
(adiai senhora
esta hora de luto)
não deixarei nada
levarei tudo
para a morada
dos pés juntos:
papel de rolo
um rio com monjolo
uma vaca
uma pedra de amolar faca
um porco uma porca
um livro de lorca
um partido de cana
dois cachos de banana
um mato um monte
e um resto velho de ponte.
sim, levarei tudo
não deixarei nada
exceto minha alma penada
pra assustar vocês.
ORAÇÃO DO PEDREIRO
e à alma
do inditoso
pedreiro
(que desta
para uma
melhor passa)
rezemos todos
com fervor
uma alvenaria
cheia de massa.
do inditoso
pedreiro
(que desta
para uma
melhor passa)
rezemos todos
com fervor
uma alvenaria
cheia de massa.
MORRER
morrer
é apagarem-se
todas as luzes da casa
quando tudo gela
na noite
maravilhosa e bela
e o céu se infesta
de estrelas
e faz um silêncio de rachar.
morrer
é não mais
ir à feira.
é ficar em casa
descansando
em trajes de madeira.
é apagarem-se
todas as luzes da casa
quando tudo gela
na noite
maravilhosa e bela
e o céu se infesta
de estrelas
e faz um silêncio de rachar.
morrer
é não mais
ir à feira.
é ficar em casa
descansando
em trajes de madeira.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
POEMA DA VAGINA
1
a vagina
é um bolso
um calabouço
um poço no jardim.
a caixa de pandora
a lâmpada de aladim
que homens adoram
e mulheres que não
e que sim.
2
a vagina é uma chama
uma chaminé
o chapéu do pênis
o tênis do seu pé.
é a boca de um
jacaré sem dentes
um galpão
uma gruta
um grotão
um cano
de passar gente.
3
a vagina é uma mala
uma maleta
um vale
uma valise
uma valeta.
um cone
um canal
um monte
uma fonte
um horizonte
vertical.
4
a vagina
é uma boca
com gula
um forno
uma fornalha
uma fagulha.
um viaduto
um aqueduto
um bornal
a caixinha de rapé
para o nariz do pau.
a vagina
é um bolso
um calabouço
um poço no jardim.
a caixa de pandora
a lâmpada de aladim
que homens adoram
e mulheres que não
e que sim.
2
a vagina é uma chama
uma chaminé
o chapéu do pênis
o tênis do seu pé.
é a boca de um
jacaré sem dentes
um galpão
uma gruta
um grotão
um cano
de passar gente.
3
a vagina é uma mala
uma maleta
um vale
uma valise
uma valeta.
um cone
um canal
um monte
uma fonte
um horizonte
vertical.
4
a vagina
é uma boca
com gula
um forno
uma fornalha
uma fagulha.
um viaduto
um aqueduto
um bornal
a caixinha de rapé
para o nariz do pau.
POEMA-VESTIDO
em memória de minha mãe
um poema-vestido
eu mandei costurar
para vestir minha mãe
dona Neusa de Aguiar.
um poema-vestido
eu mandei costurar
para vestir minha mãe
dona Neusa de Aguiar.
A ADEGA
para Severino do Ramo Mendes, meu pai
meu pai tem
uma adega
no saguão
de sua boca.
pra 200 anos
já vai
que reclamo.
mas ele diz
que só bebe
porque é do ramo.
meu pai tem
uma adega
no saguão
de sua boca.
pra 200 anos
já vai
que reclamo.
mas ele diz
que só bebe
porque é do ramo.
O BARBEIRO
em memória do poeta barbeiro Eulajose Dias de Araújo
todo dia Eulajose,
o barbeiro,
como quem
corta árvores,
podava cabelos.
no rang-rang
da máquina,
no tic-tac
da tesoura
a copa era
a cabeça,
os cabelos
as folhas.
todo dia Eulajose,
o barbeiro,
como quem
corta árvores,
podava cabelos.
no rang-rang
da máquina,
no tic-tac
da tesoura
a copa era
a cabeça,
os cabelos
as folhas.
MEDITAÇÃO
pra que dar
nó no peito
e ficar expondo
a ferida?
basta dar água
aos sonhos
e entreter a vida.
e não perder a ilusão
que ao peito
ronda,
debruçando
castelos
sobre a crina
das ondas.
nó no peito
e ficar expondo
a ferida?
basta dar água
aos sonhos
e entreter a vida.
e não perder a ilusão
que ao peito
ronda,
debruçando
castelos
sobre a crina
das ondas.
MINHAS IDEIAS
às vezes é um
tinteiro com
pouca tinta,
que viro e reviro
e só um
pinguinho cai.
não dá nem
pra um haicai.
outras vezes
é um tinteiro
cheio,
que armazeno
em canetas
e penas.
para futuros
romances, teses
e poemas.
tinteiro com
pouca tinta,
que viro e reviro
e só um
pinguinho cai.
não dá nem
pra um haicai.
outras vezes
é um tinteiro
cheio,
que armazeno
em canetas
e penas.
para futuros
romances, teses
e poemas.
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Quem sou eu
- Águia Mendes
- Poeta paraibano, nascido na Cidade do Cabo Branco (ex-João Pessoa), autor dos seguintes livros: Jardim da infância, Bíblia profana, Blue para um cadáver sonhador e O livro do adivinhão. Tem ainda inéditos Sol de algibeira, Meus cantares de Salomão e Um boi pastando nas nuvens (poemas infantis).